GP da Húngria

GP da Hungria expõe velhas fraquezas de Hamilton.

Quem diria?! O travado GP da Hungria foi totalmente atípico, parecia mais a corrida do Bahrein de tão movimentado. Nenhum carro da Mercedes dentro da festa, Vettel conseguiu sua segunda vitória pela Ferrari, Kvyat o primeiro pódio da carreira e Ricciardo chegou em terceiro, apesar de ter vislumbrado o primeiro lugar por um momento. Destaque para o quinto lugar de Fernando Alonso, pasme, à frente de Lewis Hamilton.

Bem, não vou fazer um resumo de todo o GP. Às vezes o faço, mas não é bem o propósito deste espaço. Dito isso, vamos ao que importa. O que mais me chamou atenção nesta corrida? Simples: a performance de Lewis Hamilton! Seus fãs mais apaixonados dirão que ele fez uma bela corrida, pois sua recuperação foi fantástica. Certamente, essa não é a minha visão.

Logo na largada o inglês perdeu três posições. Em seguida, ainda na primeira volta, tentou ultrapassar Rosberg onde, frise-se, não havia espaço. Como consequência caiu para décimo. Nessa manobra, por um triz não ficou de fora da corrida. Penou para ultrapassar Felipe Massa num circuito que em nada favorecia aos carros da Williams. Foi considerado culpado pelo incidente com Ricciardo. Esqueci algo? Terminou a corrida em sexto lugar e, no fim das contas, foi beneficiado pela colisão que aconteceu entre o australiano da Red Bull e Nico Rosberg que brigavam pela segunda posição.

Por pouco não abandona a prova.

Hamilton passeia pela brita.

Como Hamilton, ao final do dia, teve os prejuízos diminuídos para o campeonato – na verdade houve lucro -, seus erros não ficaram tanto em evidência. O mesmo aconteceu em Silverstone. Apesar da tentativa frustrada de ultrapassar Massa na Inglaterra após a saída do Safety Car, a vitória mascarou mais um erro. Como na Hungria houve uma sucessão de falhas, comecei a questionar se realmente ele havia amadurecido.

Muito embora seja um piloto de raro talento e extremamente rápido, sua inteligência e equilíbrio emocional são questionados desde 2007. Quem não se recorda daqueles erros primários nos GPs da China e Brasil? Este último, de tão crasso que foi, deu margem a teorias conspiratórias… Mesmo no ano seguinte, que marcou o seu primeiro título, houve alguns equívocos durante a temporada. E nunca é demais lembrar que ele só conseguiu o campeonato na última curva do circuito de Interlagos, para a eterna lamentação de muitos brasileiros.

Em 2010, quando voltou a ter um carro competitivo, jogou a disputa pelo título fora por conta dos erros cometidos em Monza e Cingapura. No ano de 2012, a lembrança que me vem à memória foi aquela colisão com Maldonado em Valência. Já na temporada que marcou a conquista do bicampeonato, ele conseguiu reverter situações de desvantagem, o que também mascarou algumas falhas ocorridas durante o ano… O mesmo deve acontecer neste campeonato, já que dificilmente ele não conseguirá o terceiro título. Neste post de 2014 há dois vídeos que mostram alguns erros do passado (http://wp.me/p4f3dZ-aj). Abaixo veja o episódio do GP do Brasil em 2007, ano de estreia do inglês.

Como mencionado acima, tendo em vista os recentes episódios, ficam algumas questões. Assim como em 2014, nesta temporada o bicampeão inglês dispõe do melhor carro do grid. A vantagem do F1 W06 Hybrid em relação a seus concorrentes é abissal. Tenho afirmado em posts anteriores que Lewis tem se apresentado mais maduro, equilibrado e forte mentalmente. Mas essa é uma percepção verdadeira ou apenas fruto de não se encontrar diante de circunstâncias de maior adversidade? Atualmente seu único concorrente é Nico Rosberg. É verdade que o alemão não lhe facilita as coisas, todavia é diferente quando os desafios são impostos por pilotos de outras escuderias. As dificuldades são maiores. Nas disputas internas, queiram ou não, o respeito tende a ser maior.

Estes dois últimos grandes prêmios nos trouxeram de volta o velho Hamilton: afoito e inconsequente. Graças à superioridade da Mercedes, ele foi capaz de conseguir uma grande recuperação e deverá sagrar-se tri ao final da temporada. Caso a equipe alemã tivesse concorrentes à altura durante toda a temporada (e não só eventualmente), poderíamos ver a verdadeira evolução do inglês.

Numa Fórmula 1 em que o desempenho do carro praticamente dita o vencedor – e tem sido assim desde os primórdios, porém atualmente isso é mais acentuado – devemos nos apegar a estas sutilezas na hora de comparar pilotos e saber o lugar que cada um ocupa numa disputa “peso por peso”, por assim dizer.

Não tenho dúvida, Hamilton é um grande talento. Entretanto, ele ainda tem algo a provar.

27/07/15.

Hamilton continua sendo favorito ao título.

A próxima etapa será disputada no próximo domingo, dia 24 de agosto, em um dos circuitos preferidos dos pilotos, Spa-Francorchamps. Após a primeira metade do campeonato, de forma até surpreendente, o líder é o alemão Nico Rosberg. Surpreendente, sim, pois seu companheiro é ninguém menos que Lewis Hamilton, tido por muitos, antes do início da temporada, como o grande favorito, já que, desde o ano passado, a Mercedes era apontada como a equipe a ser batida, devido aos grandes os rumores – que se confirmaram – da superioridade da sua unidade de potência.

Depois de 11 etapas, ainda que tenha diminuído, o favoritismo do inglês continua. Apesar de ser mais talentoso do que Rosberg, o alemão quer impedir o bicampeonato de Hamilton. Em um dos posts anteriores, foi dito que o vencedor da guerra psicológica seria o campeão (http://wp.me/p4f3dZ-6p). Ledo engano. A força mental, naturalmente, continuará exercendo um papel de suma importância, todavia, com o título ficando apenas entre os pilotos da equipe alemã, a confiabilidade passa a ter papel fundamental e Toto Wolff não esconde sua apreensão:

Confiabilidade é a nossa principal preocupação. Portanto, temos que nos empenhar ao máximo e entender o porquê disso estar acontecendo. Estamos tentando distinguir e resolver os problemas… Temos que nos acalmar, analisar tudo apropriadamente e voltar com mais força após as férias.”

A preocupação do diretor da equipe alemã não é à toa. Tomem-se como exemplos os Grandes Prêmios da Inglaterra e da Hungria. No primeiro, Rosberg liderava a corrida, mas abandonou com problemas no câmbio. Nesta última, ainda no início do Q1, o carro de Hamilton apresentou um vazamento de combustível que levou a um incêndio. Resultado: não chegou a disputar o treino classificatório.

Rosberg abandona em Silverstone.

Rosberg abandona em Silverstone.

Bem verdade que, embora os carros de ambos tenham apresentado falhas, Hamilton tem levado a pior nos momentos cruciais, motivo suficiente para fazer alguns pensarem em favorecimento a Rosberg. Não bastasse a mente fértil da torcida, o próprio piloto, ao afirmar que se tratava de algo além da má sorte, deu força às lamentáveis teorias conspiratórias. Entretanto, as absurdas ideias são refutadas com veemência por Niki Lauda:

Eu odeio essa discussão. Ambos, desde o primeiro dia, têm os mesmos carros, tudo é igual. Infelizmente o carro que apresentou problema era de Lewis. Estas coisas não poderiam falhar. Nós vamos consertá-las. Queremos ambos com o mesmo equipamento e que corram contra o outro, como desejam.”

As declarações de Hamilton, de fato, não fazem o menor sentido. Ele foi contratado para ser o primeiro piloto da equipe, mas encontrou um parceiro com sede de vitória, que não se contenta em fazer o papel de coadjuvante e é o único que pode derrotá-lo este ano. Imaginar que uma equipe colocaria a integridade física de sua estrela em risco beira o ridículo.

A ordem de equipe dada no GP da Hungria, e desobedecida naquela circunstância de forma acertada por Hamilton, uma vez que pontos valiosos estavam em disputa e poderão fazer diferença no fim da temporada, mostra que a Mercedes não está preparada para lidar com as peculiaridades de uma briga interna.

Mercedes de Hamilton em chamas.

Mercedes de Hamilton em chamas.

É certo que há um acordo interno entre os dois pilotos. Andrew Benson, da BBC F1, acredita que parte dele seja no sentido que, caso adotem estratégias diferentes, o outro facilite para que o melhor resultado possível seja alcançado. Este prévio ajuste interno provavelmente será revisto pela equipe, já que dificilmente Rosberg atenderá a um pedido semelhante e foi o inglês quem primeiro o descumpriu.

Ao contrário do que alguns pensam, não houve tentativa de favorecimento a Rosberg. Se a situação fosse a inversa, a ordem teria sido dada da mesma forma, como já aconteceu na temporada passada e neste ano, quando foi solicitado ao alemão para que não atacasse Hamilton. As ordens dadas anteriormente já indicavam o despreparo da equipe para administrar essa rivalidade e foram oportunamente analisadas (http://wp.me/p4f3dZ-2y e http://wp.me/p4f3dZ-4w).

Diferentemente das temporadas passadas, apesar do amplo domínio da Mercedes, as provas têm proporcionando emoção de sobra. Se tudo correr dentro da normalidade, em duas corridas Hamilton retomará a liderança do campeonato. Após as análises dos problemas apresentados nesta primeira metade do campeonato, a tendência é a melhora da confiabilidade, como consequência o talento tende a prevalecer.

Restam oito etapas para o fim do campeonato, portanto duzentos pontos estão em jogo. Mesmo sabendo que não possui a mesma velocidade do inglês, Nico Rosberg tem demonstrado possuir melhor controle emocional, administra melhor as situações adversas e tem aproveitado cada oportunidade.

Lewis continua favorito, mas tem ciência de que não pode vacilar.

17/08/2014.

Até quando, Felipe Massa?

Neste domingo será disputada a décima etapa da temporada em Budapeste, Hungria, mas os acontecimentos do grande prêmio da Alemanha ainda repercutem no paddock, notadamente o acidente que envolveu Felipe Massa e o novato Kevin Magnussen. O brasileiro ficou indignado com a situação e apontou duramente o jovem dinamarquês como o responsável pelo fim prematuro de sua corrida:

Eu estava na frente, fazia a curva à frente dele. Se alguém precisa observar, é o carro atrás. Ainda não vi o acidente, mas normalmente o carro de trás precisa frear. Naquela curva não se pode ter três carros lado a lado e eu diminuí um pouco para que ficasse ao lado do meu companheiro de equipe. Geralmente é um cara quem vem da GP2 quem causa o acidente. A única coisa que me chateia com o que aconteceu é outro carro ter me tirado da corrida. Então estou extremamente desapontado

Durante a corrida, os comissários puseram o incidente sob investigação, mas decidiram não punir nenhum dos pilotos. Entretanto, após o relatório ter sido publicado, soube-se que Magnussen fora inocentado e que apenas a trajetória do piloto da ascendente Williams havia sido analisada. Não satisfeito, Felipe Massa, em vez de pôr uma pedra no assunto, ou mesmo desculpar-se, continuou afirmando que o único culpado era o dinamarquês. E mais, disse que a FIA precisava melhorar na escolha dos comissários.

Fim de linha na 1ª curva.

Fim de linha na 1ª curva.

E os pilotos? Qual a opinião deles? Durante a entrevista coletiva desta quinta-feira, aqueles que foram selecionados para integrá-la, dentre eles Sergio Pérez, foram questionados acerca do posicionamento da FIA. O mexicano, que colidiu com Felipe Massa no Canadá, foi comedido em sua resposta e afirmou que Magnussen fez de tudo para evitar o acidente, mas era difícil apontar um culpado. Em seguida, David Croft (comentarista da Sky Sports) aproveitou o ensejo para interrogar alguns pilotos sobre qual a postura deles após as colisões, destacando-se a resposta de Esteban Gutierrez:

Bem, acredito que é muito simples, basta que haja respeito entre todos nós e como disse Pastor, quando você comete um erro, tem de aceitá-lo e é muito importante que se faça em público também, para que se encontre o ajuste certo, pois, no fim, não é benéfico para ninguém. Se ambos batemos, ambos acabamos com as nossas corridas… Não importa o que acontece depois. O problema e a consequência já aconteceram…

A exemplo de Magnussen, Gutierrez veio da GP2 e estreou na categoria pela Sauber na temporada passada. Apesar de estar na Fórmula 1 há pouco mais de um ano, o mexicano, por conta de sua resposta, parece ter bem mais experiência que Felipe Massa que estreou em 2002, portanto há mais de dez anos.

É interessante ver a postura de Massa neste incidente, inclusive acusando a FIA de escolher mal seus comissários. É de se questionar por qual motivo ele não fez tal indagação quando Perez foi considerado culpado no GP do Canadá, ocasião em que os especialistas no assunto consideraram tal punição equivocada (http://wp.me/p4f3dZ-5Q).

Colisão em Silverstone.

Colisão em Silverstone.

Neste ano, a temporada de Felipe Massa tem sido marcada pela quantidade de incidentes em que se envolveu. Sem dúvida, ele não teve culpa em alguns deles, a exemplo da Austrália, quando foi acertado em cheio por Kamui Kobayashi, e da Inglaterra, sendo que neste último teve grande habilidade para diminuir a proporção da colisão com Kimi Raikkonen. Todavia o brasileiro precisa refletir bastante acerca dos motivos que o fizeram estar presente em todos eles e tirar lições.

Embora a Mercedes disponha do melhor carro do grid, a Williams tem oferecido um monoposto capaz de brigar por pódios e, dependendo da característica do circuito, até mesmo pela vitória. Chega-se a tal conclusão a partir do desempenho de seu companheiro Valtteri Bottas. O finlandês, que se encontra em plena ascensão, já somou 91 pontos contra apenas 30 de Massa e acumulou três pódios, sendo que um deles à frente de Hamilton.

Se o momento não é dos melhores, sempre há tempo para evoluir, amadurecer. Ainda resta a segunda metade do campeonato para que Felipe Massa mostre seu valor. Mas que fique claro: não há mais espaço para desculpas.

25/07/14.