Falta de transparência alimenta teorias da conspiração.

O Grande Prêmio da Itália, disputado no lendário circuito de Monza, deixou a desejar no quesito emoção. Merecem destaque a bela corrida de Valtteri Bottas, o fato de Ricciardo ter chegado mais uma vez à frente de Vettel e o primeiro pódio de Felipe Massa neste ano. Mas esses assuntos foram por demais esgotados pela imprensa e falar deles seria mais do mesmo, embora a situação da dupla da Williams mereça ser melhor abordada no futuro.

Além do que fora mencionado acima, um ponto que gerou polêmica foram os erros cometidos por Nico Rosberg, facilitando o caminho da vitória para seu companheiro de equipe Lewis Hamilton. Não só aqui no Brasil, mas no mundo todo, a teoria de que o alemão havia errado de propósito, por conta do que aconteceu no Grande Prêmio da Bélgica (http://wp.me/p4f3dZ-9j), tomou conta das redes sociais.

Apesar de não ser a opinião da maioria que faz parte do meio, tal fato causou certa estranheza a Jackie Stewart. No primeiro, não houve perda de posição, mas no segundo, Hamilton aproveitou-se do suposto equívoco e tomou a liderança do alemão. Eis as palavras do tricampeão:

Na primeira vez eu pensei ‘isso foi sábio’, pois não seria algo difícil de acreditar; na segunda vez eu pensei: ‘opa, o que está acontecendo aqui?’. Não houve tanta fumaça de borracha – na freada – e eu não entendi bem aquilo em uma parte muito fácil da pista. Era uma parte da pista que não que não havia punição para aquele erro, então estou um pouco confuso. Eu pensava que era fácil demais. Achei que ele poderia ao menos ter se esforçado para fazer a curva, mas ele não fez.

Segundo Toto Wolff, co-chefe da Mercedes, apenas uma mente paranoica pensaria que foi algo combinado. O atual líder do campeonato afirma que errou e preferiu não fazer a tomada da curva, pois desgastaria demasiadamente seu pneu, o que comprometeria o decorrer de sua corrida. Para o ex-piloto David Coulthard, atualmente comentarista da BBC F1, Rosberg sentiu-se pressionado e errou o tempo de freada:

Rosberg se pegou pensando durante a corrida: ‘ok, sou o líder, está tudo correndo bem.’ Então, de repente, passou a ser ‘o que? Ele está em segundo?’ e por fim: ‘e agora ele está me alcançando?’. Você começa a pensar naquilo, em vez de guiar o carro. E é assim que você acaba cometendo erros, como os dois feitos por Rosberg na corrida.

A atual temporada traz consigo situações duvidosas e tendo sempre como protagonistas os pilotos da Mercedes. Salvo melhor juízo, a primeira polêmica de maior proporção se deu em Mônaco, quando o próprio Rosberg causou uma bandeira amarela, impossibilitando os demais pilotos de completarem sua volta rápida. Resultado: pole do alemão, uma vantagem preciosa naquele circuito.

Em seguida, o carro de Hamilton apresentou problemas em algumas corridas, fato suficiente para que se levantasse a hipótese de favorecimento ao alemão, principalmente na mente daqueles que torcem pelo britânico, que hoje tem bem mais carisma do que seu companheiro. Entretanto, essa última teoria é bem mais fácil de ser refutada.

Sem abraço em Mônaco.

Sem abraço em Mônaco.

Primeiro, Hamilton foi contratado para ser a grande estrela da equipe. Segundo, o carro do alemão também apresentou problemas, a exemplo do Grande Prêmio do Canadá, quando por mérito conseguiu chegar atrás apenas do vencedor Daniel Ricciardo, enquanto Lewis abandonou, pois não soube administrar o equipamento avariado. Em Silverstone, foi a vez de Nico abandonar, por problemas no câmbio, quando liderava a corrida.

Portanto, ambos sofreram falhas mecânicas. Esse assunto já foi plenamente discutido anteriormente (http://wp.me/p4f3dZ-8V). Porém, no que diz respeito aos episódios de Mônaco e Monza, apenas os envolvidos poderiam confirmar que tudo foi previamente combinado. Como os respectivos discursos são em sentido contrário, o melhor que se faz é conceder-lhes o benefício da dúvida.

Como dito acima, Hamilton foi contratado para ser o primeiro piloto da equipe e não se esperava que Rosberg fosse oferecer tanta resistência ao inglês. É este fato que vem causando tanta “dor de cabeça” aos dirigentes da equipe. Não há dúvida de que Lewis é mais talentoso que seu companheiro – é em torno de dois, quase três décimos mais rápido -, mas o alemão, que pela primeira vez dispõe de um carro que lhe possibilita brigar pelo título, está longe de se satisfazer com o papel de mero escudeiro.

No Brasil, a maior parte dos fãs torce por piloto e não pela equipe. Na Europa, a torcida por equipe que se destaca é dos ferraristas. Óbvio que há quem torça pela McLaren, mas isso se dá em bem menor proporção. Ocorre que, não obstante haver um campeonato de pilotos, há também o cobiçado campeonato de construtores. Portanto, embora a Fórmula 1 seja um esporte, ela também é um negócio que envolve cifras milionárias, motivo pelo qual não raro certas decisões tomadas pelas equipes, apesar de não agradar aos fãs, satisfazem os interesses que há por trás delas.

Hamilton agradece o erro.

Hamilton agradece o erro.

Por se tratar de um negócio, a priori, se alguém vai ser favorecido pela Mercedes, esse é Lewis Hamilton. Sua contratação foi feita a peso de ouro e, como repetido por diversas vezes nos posts anteriores, ganha o dobro do salário de Rosberg. De outra banda, as conversas sobre a renovação de seu contrato foram adiadas, enquanto o alemão permanecerá por longo período na escuderia. Então, no caso da Mercedes, há mais motivos para acreditar na igualdade de tratamento.

Lógico que os pilotos escolhidos para liderar a equipe se mostraram, ao longo da carreira, ser mais competentes, consequentemente conseguiram patrocinadores mais fortes. Todavia, uma coisa é certa, o investimento feito deve dar retorno. É por tal motivo que uma frase está sempre presente não só na boca dos chefes, como dos próprios pilotos: o interesse da equipe vem sempre em primeiro lugar. Acontece que esse interesse, no fim das contas, é “meramente” financeiro, por isso repetidamente se sobrepõe à desportividade.

Os detalhes desse complexo cenário não são conhecidos pelos torcedores, pelo contrário, as equipes não fazem questão de mostrar as razões que motivam suas decisões, tornando-as, por vezes, controversas. No caso da F1, os resultados, por si só, não garantem o retorno dos investimentos. É preciso também que haja interesse do público e este vem caindo a cada temporada.

Todas essas teorias, por mais ridículas que sejam, acabam movimentando o esporte e atraindo o interesse pela categoria, inclusive o torcedor que nela acredita, defende sua tese como se fosse o dono da verdade, tamanha é a sua certeza.

Sendo assim, questiona-se: para quem interessa a transparência?

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