Mês: setembro 2014

GP de Cingapura: corrida vital para as pretensões de Hamilton.

A classificação do Grande Prêmio de Cingapura foi a mais emocionante da temporada até então. Apesar de a hierarquia habitual ter se mantido no fim, ainda não tinha havido um Q3 tão imprevisível. A Mercedes recebeu ameaça direta da Red Bull, Williams e Ferrari, porém assegurou a primeira fila com Hamilton na pole position, mas apenas a sete milésimos de Rosberg.

Sem dúvida, largar em primeiro, em um circuito travado como o de Cingapura, significa grande vantagem. Mesmo cometendo um erro em sua volta lançada, Hamilton cravou o primeiro lugar do grid. Entretanto, das seis etapas que lá ocorreram, o inglês coleciona algumas más memórias.

Se nas duas primeiras corridas disputadas em Cingapura (2008 e 2009), o inglês conseguiu ótimos resultados – um segundo lugar e uma vitória, respectivamente – no ano de 2010, temporada em que já poderia ter se tornado bicampeão, envolveu-se em um incidente com MarK Webber e abandonou a corrida. Naquela ocasião, o australiano que corria pela RBR ainda completou o pódio. Relembre:

Já em 2011, conseguiu um modesto 5º lugar, mas não sem antes se envolver em outra colisão, dessa vez com Felipe Massa. Após a corrida, o brasileiro foi tirar satisfações quando Hamilton dava entrevista, em uma cena até certo ponto hilária (caso não se recorde, basta ver o vídeo abaixo, que inclui outros incidentes). Na temporada seguinte, novo abandono, mas nesta ocasião por problemas no câmbio. Por fim, em 2013, novamente a 5ª posição.

É certo que ao conseguir a pole, Hamilton deu um grande passo para a conquista de sua segunda vitória em Cingapura, mas o primeiro lugar do grid pode não vir a ser um fator tão determinante. As variáveis para esta corrida são muitas. Os rivais mostraram-se mais próximos do que nunca e a possibilidade de haver Safety Car é altíssima. Some-se ainda o fator da estratégia, que deverá exercer um papel de suma importância. Ingredientes para um corrida emocionante. Pelo menos, é o que se espera.

Além de Rosberg, Hamilton terá de lidar com Ricciardo, Vettel, os dois pilotos da Williams e Fernando Alonso, que não esconde o desejo de chegar ao pódio, mesmo largando na quinta posição:

Normalmente, perdemos terreno na classificação. Mas isso não aconteceu hoje, permanecemos competitivos também nela, a dois décimos da pole position, o que é meio que uma grande surpresa para nós. Estou muito contente e espero que amanhã tenhamos oportunidade de correr com os líderes, algo que não fizemos muito este ano… Temos de cruzar a linha de chegada. Se fizermos isso, acho que o pódio é possível, pois temos ritmo e provavelmente uma boa degradação de pneu.”

Atualmente, a vantagem do líder Rosberg é de 22 pontos. Depois desta corrida, ainda restarão mais cinco etapas, lembrando que em Abu Dhabi, última a ser disputada, a pontuação será dobrada para o vencedor. Todavia, um resultado ruim de Hamilton neste grande prêmio pode colocar o alemão com uma mão na taça.

Óbvio que tudo pode acontecer, inclusive a retomada da liderança por parte do inglês, até porque Hamilton guia o melhor carro do grid e está em ótima forma. Ocorre que, ao levar-se em conta as últimas corridas, o cenário não lhe é muito favorável, ainda mais com a possibilidade de disputas acirradas, onde o mínimo erro pode levar ao muro.

Trata-se de uma etapa que é sempre acompanhada de grandes surpresas. O Cingapuragate que o diga.

20/09/14.

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Falta de transparência alimenta teorias da conspiração.

O Grande Prêmio da Itália, disputado no lendário circuito de Monza, deixou a desejar no quesito emoção. Merecem destaque a bela corrida de Valtteri Bottas, o fato de Ricciardo ter chegado mais uma vez à frente de Vettel e o primeiro pódio de Felipe Massa neste ano. Mas esses assuntos foram por demais esgotados pela imprensa e falar deles seria mais do mesmo, embora a situação da dupla da Williams mereça ser melhor abordada no futuro.

Além do que fora mencionado acima, um ponto que gerou polêmica foram os erros cometidos por Nico Rosberg, facilitando o caminho da vitória para seu companheiro de equipe Lewis Hamilton. Não só aqui no Brasil, mas no mundo todo, a teoria de que o alemão havia errado de propósito, por conta do que aconteceu no Grande Prêmio da Bélgica (http://wp.me/p4f3dZ-9j), tomou conta das redes sociais.

Apesar de não ser a opinião da maioria que faz parte do meio, tal fato causou certa estranheza a Jackie Stewart. No primeiro, não houve perda de posição, mas no segundo, Hamilton aproveitou-se do suposto equívoco e tomou a liderança do alemão. Eis as palavras do tricampeão:

Na primeira vez eu pensei ‘isso foi sábio’, pois não seria algo difícil de acreditar; na segunda vez eu pensei: ‘opa, o que está acontecendo aqui?’. Não houve tanta fumaça de borracha – na freada – e eu não entendi bem aquilo em uma parte muito fácil da pista. Era uma parte da pista que não que não havia punição para aquele erro, então estou um pouco confuso. Eu pensava que era fácil demais. Achei que ele poderia ao menos ter se esforçado para fazer a curva, mas ele não fez.

Segundo Toto Wolff, co-chefe da Mercedes, apenas uma mente paranoica pensaria que foi algo combinado. O atual líder do campeonato afirma que errou e preferiu não fazer a tomada da curva, pois desgastaria demasiadamente seu pneu, o que comprometeria o decorrer de sua corrida. Para o ex-piloto David Coulthard, atualmente comentarista da BBC F1, Rosberg sentiu-se pressionado e errou o tempo de freada:

Rosberg se pegou pensando durante a corrida: ‘ok, sou o líder, está tudo correndo bem.’ Então, de repente, passou a ser ‘o que? Ele está em segundo?’ e por fim: ‘e agora ele está me alcançando?’. Você começa a pensar naquilo, em vez de guiar o carro. E é assim que você acaba cometendo erros, como os dois feitos por Rosberg na corrida.

A atual temporada traz consigo situações duvidosas e tendo sempre como protagonistas os pilotos da Mercedes. Salvo melhor juízo, a primeira polêmica de maior proporção se deu em Mônaco, quando o próprio Rosberg causou uma bandeira amarela, impossibilitando os demais pilotos de completarem sua volta rápida. Resultado: pole do alemão, uma vantagem preciosa naquele circuito.

Em seguida, o carro de Hamilton apresentou problemas em algumas corridas, fato suficiente para que se levantasse a hipótese de favorecimento ao alemão, principalmente na mente daqueles que torcem pelo britânico, que hoje tem bem mais carisma do que seu companheiro. Entretanto, essa última teoria é bem mais fácil de ser refutada.

Sem abraço em Mônaco.

Sem abraço em Mônaco.

Primeiro, Hamilton foi contratado para ser a grande estrela da equipe. Segundo, o carro do alemão também apresentou problemas, a exemplo do Grande Prêmio do Canadá, quando por mérito conseguiu chegar atrás apenas do vencedor Daniel Ricciardo, enquanto Lewis abandonou, pois não soube administrar o equipamento avariado. Em Silverstone, foi a vez de Nico abandonar, por problemas no câmbio, quando liderava a corrida.

Portanto, ambos sofreram falhas mecânicas. Esse assunto já foi plenamente discutido anteriormente (http://wp.me/p4f3dZ-8V). Porém, no que diz respeito aos episódios de Mônaco e Monza, apenas os envolvidos poderiam confirmar que tudo foi previamente combinado. Como os respectivos discursos são em sentido contrário, o melhor que se faz é conceder-lhes o benefício da dúvida.

Como dito acima, Hamilton foi contratado para ser o primeiro piloto da equipe e não se esperava que Rosberg fosse oferecer tanta resistência ao inglês. É este fato que vem causando tanta “dor de cabeça” aos dirigentes da equipe. Não há dúvida de que Lewis é mais talentoso que seu companheiro – é em torno de dois, quase três décimos mais rápido -, mas o alemão, que pela primeira vez dispõe de um carro que lhe possibilita brigar pelo título, está longe de se satisfazer com o papel de mero escudeiro.

No Brasil, a maior parte dos fãs torce por piloto e não pela equipe. Na Europa, a torcida por equipe que se destaca é dos ferraristas. Óbvio que há quem torça pela McLaren, mas isso se dá em bem menor proporção. Ocorre que, não obstante haver um campeonato de pilotos, há também o cobiçado campeonato de construtores. Portanto, embora a Fórmula 1 seja um esporte, ela também é um negócio que envolve cifras milionárias, motivo pelo qual não raro certas decisões tomadas pelas equipes, apesar de não agradar aos fãs, satisfazem os interesses que há por trás delas.

Hamilton agradece o erro.

Hamilton agradece o erro.

Por se tratar de um negócio, a priori, se alguém vai ser favorecido pela Mercedes, esse é Lewis Hamilton. Sua contratação foi feita a peso de ouro e, como repetido por diversas vezes nos posts anteriores, ganha o dobro do salário de Rosberg. De outra banda, as conversas sobre a renovação de seu contrato foram adiadas, enquanto o alemão permanecerá por longo período na escuderia. Então, no caso da Mercedes, há mais motivos para acreditar na igualdade de tratamento.

Lógico que os pilotos escolhidos para liderar a equipe se mostraram, ao longo da carreira, ser mais competentes, consequentemente conseguiram patrocinadores mais fortes. Todavia, uma coisa é certa, o investimento feito deve dar retorno. É por tal motivo que uma frase está sempre presente não só na boca dos chefes, como dos próprios pilotos: o interesse da equipe vem sempre em primeiro lugar. Acontece que esse interesse, no fim das contas, é “meramente” financeiro, por isso repetidamente se sobrepõe à desportividade.

Os detalhes desse complexo cenário não são conhecidos pelos torcedores, pelo contrário, as equipes não fazem questão de mostrar as razões que motivam suas decisões, tornando-as, por vezes, controversas. No caso da F1, os resultados, por si só, não garantem o retorno dos investimentos. É preciso também que haja interesse do público e este vem caindo a cada temporada.

Todas essas teorias, por mais ridículas que sejam, acabam movimentando o esporte e atraindo o interesse pela categoria, inclusive o torcedor que nela acredita, defende sua tese como se fosse o dono da verdade, tamanha é a sua certeza.

Sendo assim, questiona-se: para quem interessa a transparência?

Dança das cadeiras ainda depende de Fernando Alonso.

Como em toda temporada, à medida em que o Grande Prêmio de Monza se aproxima, as especulações tomam conta do paddock. Já não é segredo que a McLaren quer a todo custo ter como piloto Fernando Alonso. Caso não consiga contar com o espanhol, a equipe britânica tentará contratar Sebastian Vettel. Ambos têm compromissos com suas equipes, sendo que o primeiro tem contrato até 2016 e o segundo até o fim da próxima temporada.

Alonso é tido, por imensa maioria, como o melhor piloto do grid e sua capacidade é inquestionável. Mesmo não sendo aquele de sua preferência, Ron Dennis cedeu às exigências da Honda de tentar tê-lo novamente na McLaren. Algo que chama atenção é o fato de Lewis Hamilton, “cria” de Dennis e motivo pelo qual Alonso deixou a equipe de Woking no fim de 2007, após aquela conturbada temporada, não estar entre os preferidos (é apenas a terceira opção), pois seu contrato com a Mercedes também vai até o fim do próximo ano.

A Honda definitivamente prefere o espanhol. Vale mencionar que o bicampeão é admirador da cultura oriental, frequentemente parafraseia frases relacionadas a Samurais, tendo inclusive tatuado um em suas costas. Claro que isso não é um fator determinante, mas sem dúvida agrada aos japoneses.

Outra especulação que ganha força é a de que há cláusula contratual de performance, que libera o espanhol antes do seu termo final, portanto sem o pagamento de multa rescisória. Há muitas teorias, mas as que mais fazem sentido são em relação à posição da equipe no mundial de construtores ou à diferença para o primeiro colocado no de pilotos, quiçá ambas. De toda forma, toda e qualquer mudança nas grandes equipes depende principalmente da decisão que o espanhol tomar.

Considera-se um Samurai?!

Considera-se um Samurai?!

Entretanto, a probabilidade de mudanças drásticas na composição das escuderias deve ficar apenas para 2016. Seria inclusive um tempo razoável para que o piloto da Ferrari pudesse refletir se valeria a pena deixar a escuderia que, apesar de não lhe ter proporcionado um carro à altura nos últimos anos, enfim parece ter visualizado seus principais pontos fracos, notadamente diante das importantes mudanças de ordem técnica que a equipe vem fazendo, a exemplo da chegada de James Alisson, Dirk de Beer e Marco Mattiacci.

Em entrevista ao Skysports, Alonso declarou que, hoje, não pretende deixar a Ferrari, ficou lisonjeado pelo interesse das outras equipes, mas que deseja ser campeão pela escuderia de Maranello:

Não é minha intenção, no momento, sair, eu quero vencer aqui e terminar o trabalho que começamos há alguns anos. Tem havido muita conversa desde o último verão, mas da minha boca nunca saiu nenhum interesse de deixar a Ferrari ou alguma palavra dizendo que eu me juntaria a outra equipe. Houve muita especulação, o que não perturba, mas criou um pouco de tensão e estresse. Você ainda fica feliz e orgulhoso quando as grandes equipes têm interesse em você.”

Da mesma forma, Sebastian Vettel, que tem sofrido para se adaptar ao carro deste ano, enquanto seu companheiro já venceu três vezes, ainda terá um monoposto desenhado por Adrian Newey em 2015, o que não mais acontecerá a partir de 2016, já que o projetista desempenhará outro papel junto a RBR, longe da F1, cujos detalhes ainda não foram revelados.

A decisão do espanhol atinge diretamente também Jenson Button. Caso o espanhol tivesse aceitado o convite já para temporada do ano que vem, o inglês, de 34 anos, seria o mais cotado para deixar a equipe, tendo inclusive afirmado que existe a possibilidade de se aposentar ao fim deste campeonato. Mas, pelos motivos elencados acima, Button e Magnussen devem ter seus lugares assegurados pelo menos até o fim de 2015.

Há que se observar também a situação dos pilotos da Mercedes, líder absoluta na atual temporada. Não obstante as mudanças principais estarem reservadas para o ano de 2016, se o clima no fim do ano não for dos melhores e principalmente caso Hamilton saia perdedor da disputa, ganha peso a possibilidade de o inglês deixar a equipe.

Lewis encontra-se numa situação parecida com aquela vivenciada por Alonso em 2007, inclusive o desfecho pode ser o mesmo. Naquele ano, o espanhol deixou a McLaren e retornou a Renault, que já não era mais aquela equipe vitoriosa de outrora. A questão é saber onde haveria vaga para o inglês.

Mudanças significativas?

Mudanças significativas?

Uma possibilidade real, seria a ida do inglês para a Williams, enquanto o jovem promissor Valtteri Bottas assumiria seu lugar na Mercedes, conforme debatido com o amigo Andoni Campos no twitter. A Williams já demonstrou interesse em renovar o contrato do finlandês, mas ainda não o fez, enquanto Lewis e sua equipe adiaram as negociações.

Em tal hipótese, Hamilton assinaria contrato de um ano com a nova equipe e esperaria pelas decisões de Alonso e Vettel para só então poder pensar nas equipes que regularmente vêm disputando título nas temporadas passadas. Isso se permanecer na Williams não fosse um bom negócio, já que a equipe voltou a conseguir bons resultados na temporada atual.

Voltando à situação de Alonso. Além do interesse da McLaren, sua atual equipe já fez proposta de renovação até 2019. Resta saber se a equipe inglesa esperará mais uma temporada pela decisão do espanhol. Se o interesse da Honda for tão grande o quanto se comenta, provavelmente aproveitarão o próximo ano para continuar tentando persuadir o espanhol a deixar a Ferrari.

A saída do bicampeão para a McLaren não significa certeza de sucesso, já que há todo um projeto a ser desenvolvido pela nova parceria com a Honda. Por outro lado, é a primeira vez que James Alisson e Dirk de Beer, contratados a seu pedido, serão os responsáveis pela concepção do próximo carro da escuderia italiana.

O espanhol terá de tomar uma difícil decisão. Talvez a maior de sua carreira, já que sua opção será onde provavelmente se aposentará. Mas isso deve ficar apenas para o ano que vem.

02/09/14.