Mês: agosto 2014

Mercedes despreparada para lidar com a rivalidade interna.

Novamente, a batalha interna entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg foi o centro das atenções em um Grande Prêmio. E não foi por conta de disputas acirradas ao longo da corrida. Logo na segunda volta, o alemão tocou o pneu traseiro-esquerdo de seu companheiro, provocando um furo, o que acabou por arruinar o fim de semana do inglês. O toque também danificou a asa do próprio Rosberg, mas este não teve grandes prejuízos, pois conseguiu chegar na segunda posição, enquanto Hamilton, ao perceber que não pontuaria, preferiu retirar-se.

Durante a corrida, o incidente sequer chegou a ser colocado sob investigação. Mesmo assim, não se fala em outra coisa. Discute-se intensamente se não seria o caso de punição a Nico Rosberg, já que ele, supostamente, seria o culpado pelo ocorrido. Após o grande prêmio, a alta cúpula da Mercedes disse que a situação era inaceitável. Toto Wolff, co-diretor chefe da equipe, mostrou-se inconformado:

Você não tenta ultrapassar com a faca entre os dentes na segunda volta e danifica ambos os carros. Segunda volta de uma longa corrida, uma batida entre dois companheiros de equipe. É absolutamente inaceitável. Era um momento decisivo para a disputa entre os dois e para a equipe. Lewis está muito triste, mas não há nada que possamos dizer a ele.

Igualmente, Niki Lauda, que ocupa um cargo não executivo na equipe, compartilha da mesma opinião, inclusive de uma forma mais dura, colocando em cheque a inteligência de seus pilotos:

É inaceitável para mim que, na segunda volta, Nico toque Lewis. Se essas coisas acontecem no fim da corrida, quando eles estão brigando, nós podemos falar sobre isso. Mas na segunda volta é ridículo. Eu pensava que eles eram espertos o suficiente para saber disso, mas obviamente não são.

Rosberg provoca furo no pneu de Hamilton.

Rosberg provoca furo no pneu de Hamilton.

Para piorar a situação Hamilton afirmou que Rosberg basicamente havia admitido, durante a reunião interna, que fez tudo de forma propositada para provar um ponto de vista. É de se estranhar, porém, que tal ponto de vista também não tenha sido revelado. Além do que, por mais perito que um piloto de F1 seja, é impossível que o alemão tivesse calculado precisamente que sua ação causaria um furo no pneu de Hamilton, um pequeno dano em sua asa e mesmo assim conseguiria chegar em segundo, enquanto o inglês não pontuaria.

Da frase dita por Hamilton não se pode tirar conclusões precipitadas, pois há um “basicamente” no meio dela. Para esclarecer a situação, Toto Wolff comunicou que Rosberg havia sido mal interpretado e que isto seria algo sem sentido. O inglês em nenhum momento afirmou categoricamente que Rosberg fez de propósito, mas sim que poderia ter evitado. Logo, não precisar ir muito longe para se chegar a conclusão de que para não haver o toque, bastaria que o alemão não tivesse ido com tanta sede ao pote nas voltas iniciais. São coisas bem distintas, mas boa parte da imprensa e o próprio Hamilton fizeram questão de não deixar as coisas claras.

Ademais, Hamilton faz um jogo que só expõe sua fraqueza psicológica. Além de tentar claramente jogar a opinião pública contra Rosberg, durante a corrida, por algumas vezes, solicitou à equipe para retirar-se da disputa, sob o argumento de que deveria poupar o motor. Mas é bem provável que ele tenha deixado se abater pelo incidente a ponto de perder a motivação para terminar o grande prêmio da Bélgica. Expor problemas internos na tentativa de justificar os maus resultados recentes não parece ser a melhor das estratégias, já que a cada corrida o alemão amplia sua vantagem.

Brawn plantou a semente.

Brawn plantou a semente do sucesso.

De toda forma, toda essa situação só comprova uma coisa: a Mercedes, até então, não tem demonstrado ter controle sobre seus pilotos. Eles simplesmente fazem o que querem. Os objetivos da equipe pouco importam. É cada um por si. Suponhamos que Rosberg tenha realmente feito tudo da forma como Hamilton afirmou. Ora, um assunto dessa gravidade só poderia ser discutido internamente, sem tamanha exposição. Bem ponderada é a visão do ex-chefe de equipe Eddie Jordan acerca do tema:

Eu acho que o gerenciamento da Mercedes tem sido fraco. Eles deveriam tomar o controle. Eles têm que castigar seus pilotos, como uma criança que tem sido malcriada. Eles têm que dizê-los o que é certo e o que é errado. Você não ataca um ao outro nas primeiras duas voltas.

Já foi dito em posts anteriores, inclusive no que antecede a este, que a Mercedes não tem mostrado a mínima habilidade para lidar com as adversidades oriundas de uma batalha interna. Recentemente, Paddy Lowe, que divide as responsabilidades da chefia da equipe com Toto Wolff, não teve o mínimo pudor ao afirmar que ele era o responsável pelo sucesso da Mercedes esse ano, apesar do belo trabalho realizado pelo antigo chefe Ross Brawn.

Todavia, uma coisa é certa. Na época de Brawn, os pilotos podiam até questionar uma ordem, mas desobedecê-la nunca chegou a ser uma possibilidade. Ele tinha total controle sobre seus pilotos por mais complexa que fosse a situação. Vale lembrar que antes de trabalhar na Mercedes, ele já havia sido vitorioso na Benetton, Ferrari e na escuderia que levava seu nome (Brawn GP). Esteve presente, portanto, nos sete títulos de Michael Schumacher e no único de Jenson Button.

Ricciardo vence a terceira.

Ricciardo vence a terceira.

As ordens de equipe podem não ser bem vistas pelo público, mas são essenciais para o sucesso da equipe. Na temporada atual, com a mudança do regulamento, a Mercedes impôs uma ampla vantagem e tudo leva a acreditar que os dois títulos fiquem com a escuderia alemã.  Mas, enquanto Hamilton e Rosberg tiram ponto um do outro, um piloto vem aos poucos atraindo os holofotes do paddock para si.

A polêmica ofuscou mais um belo resultado de Daniel Ricciardo: a terceira vitória do ano. E ele é companheiro do tetracampeão Sebastian Vettel, que ainda não venceu na temporada. Os resultados obtidos pelo “sorridente” australiano não são pouca coisa.

Em uma temporada mais disputada, a falta de comando da equipe alemã poderia facilmente custar o mundial de pilotos.

24/08/14.

Hamilton continua sendo favorito ao título.

A próxima etapa será disputada no próximo domingo, dia 24 de agosto, em um dos circuitos preferidos dos pilotos, Spa-Francorchamps. Após a primeira metade do campeonato, de forma até surpreendente, o líder é o alemão Nico Rosberg. Surpreendente, sim, pois seu companheiro é ninguém menos que Lewis Hamilton, tido por muitos, antes do início da temporada, como o grande favorito, já que, desde o ano passado, a Mercedes era apontada como a equipe a ser batida, devido aos grandes os rumores – que se confirmaram – da superioridade da sua unidade de potência.

Depois de 11 etapas, ainda que tenha diminuído, o favoritismo do inglês continua. Apesar de ser mais talentoso do que Rosberg, o alemão quer impedir o bicampeonato de Hamilton. Em um dos posts anteriores, foi dito que o vencedor da guerra psicológica seria o campeão (http://wp.me/p4f3dZ-6p). Ledo engano. A força mental, naturalmente, continuará exercendo um papel de suma importância, todavia, com o título ficando apenas entre os pilotos da equipe alemã, a confiabilidade passa a ter papel fundamental e Toto Wolff não esconde sua apreensão:

Confiabilidade é a nossa principal preocupação. Portanto, temos que nos empenhar ao máximo e entender o porquê disso estar acontecendo. Estamos tentando distinguir e resolver os problemas… Temos que nos acalmar, analisar tudo apropriadamente e voltar com mais força após as férias.”

A preocupação do diretor da equipe alemã não é à toa. Tomem-se como exemplos os Grandes Prêmios da Inglaterra e da Hungria. No primeiro, Rosberg liderava a corrida, mas abandonou com problemas no câmbio. Nesta última, ainda no início do Q1, o carro de Hamilton apresentou um vazamento de combustível que levou a um incêndio. Resultado: não chegou a disputar o treino classificatório.

Rosberg abandona em Silverstone.

Rosberg abandona em Silverstone.

Bem verdade que, embora os carros de ambos tenham apresentado falhas, Hamilton tem levado a pior nos momentos cruciais, motivo suficiente para fazer alguns pensarem em favorecimento a Rosberg. Não bastasse a mente fértil da torcida, o próprio piloto, ao afirmar que se tratava de algo além da má sorte, deu força às lamentáveis teorias conspiratórias. Entretanto, as absurdas ideias são refutadas com veemência por Niki Lauda:

Eu odeio essa discussão. Ambos, desde o primeiro dia, têm os mesmos carros, tudo é igual. Infelizmente o carro que apresentou problema era de Lewis. Estas coisas não poderiam falhar. Nós vamos consertá-las. Queremos ambos com o mesmo equipamento e que corram contra o outro, como desejam.”

As declarações de Hamilton, de fato, não fazem o menor sentido. Ele foi contratado para ser o primeiro piloto da equipe, mas encontrou um parceiro com sede de vitória, que não se contenta em fazer o papel de coadjuvante e é o único que pode derrotá-lo este ano. Imaginar que uma equipe colocaria a integridade física de sua estrela em risco beira o ridículo.

A ordem de equipe dada no GP da Hungria, e desobedecida naquela circunstância de forma acertada por Hamilton, uma vez que pontos valiosos estavam em disputa e poderão fazer diferença no fim da temporada, mostra que a Mercedes não está preparada para lidar com as peculiaridades de uma briga interna.

Mercedes de Hamilton em chamas.

Mercedes de Hamilton em chamas.

É certo que há um acordo interno entre os dois pilotos. Andrew Benson, da BBC F1, acredita que parte dele seja no sentido que, caso adotem estratégias diferentes, o outro facilite para que o melhor resultado possível seja alcançado. Este prévio ajuste interno provavelmente será revisto pela equipe, já que dificilmente Rosberg atenderá a um pedido semelhante e foi o inglês quem primeiro o descumpriu.

Ao contrário do que alguns pensam, não houve tentativa de favorecimento a Rosberg. Se a situação fosse a inversa, a ordem teria sido dada da mesma forma, como já aconteceu na temporada passada e neste ano, quando foi solicitado ao alemão para que não atacasse Hamilton. As ordens dadas anteriormente já indicavam o despreparo da equipe para administrar essa rivalidade e foram oportunamente analisadas (http://wp.me/p4f3dZ-2y e http://wp.me/p4f3dZ-4w).

Diferentemente das temporadas passadas, apesar do amplo domínio da Mercedes, as provas têm proporcionando emoção de sobra. Se tudo correr dentro da normalidade, em duas corridas Hamilton retomará a liderança do campeonato. Após as análises dos problemas apresentados nesta primeira metade do campeonato, a tendência é a melhora da confiabilidade, como consequência o talento tende a prevalecer.

Restam oito etapas para o fim do campeonato, portanto duzentos pontos estão em jogo. Mesmo sabendo que não possui a mesma velocidade do inglês, Nico Rosberg tem demonstrado possuir melhor controle emocional, administra melhor as situações adversas e tem aproveitado cada oportunidade.

Lewis continua favorito, mas tem ciência de que não pode vacilar.

17/08/2014.